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Autonomia é o novo luxo da longevidade – Diário do Rio de Janeiro

Autonomia é o novo luxo da longevidade – Diário do Rio de Janeiro
  • Publishedabril 23, 2026
Autonomia é o novo luxo da longevidade – Diário do Rio de Janeiro

Carta do papai Noel
Imagem gerada por Inteligência Artificial

A ideia de autonomia costuma aparecer como um valor central quando se fala em envelhecimento. Ser independente, manter rotinas, tomar decisões, sustentar a própria vida, participar da sociedade e preservar a própria agilidade compõem, em geral, a imagem de um envelhecer bem-sucedido.

Mas, na prática, esse envelhecer é bastante desigual. Seja por fatores sociais, econômicos e financeiros, seja por questões genéticas, culturais e de hábitos.

Contudo, ao longo da vida, todos nós transitamos, em diferentes momentos, entre autonomia e algum nível de dependência. Esse movimento pode ser sutil ou mais evidente, temporário ou permanente, relacionado à saúde, à mobilidade, às condições emocionais ou às próprias circunstâncias da vida. Mas é na maturidade que a diferença entre autonomia e dependência se torna mais visível.

Durante muito tempo, a vida foi dividida em três etapas rígidas: estudar, trabalhar e se aposentar. Os 60+ foram, então, denominados Terceira Idade, uma etapa que, antes, era mais curta e delimitada.

Com o aumento da expectativa de vida, cresce também a duração e a complexidade desses períodos entre autonomia e dependência e, com isso, a forma como a sociedade precisa se organizar para lidar com eles.

Essa dinâmica não se limita ao plano individual. Ela começa a redefinir, de maneira concreta, formas de morar, trabalhar, circular e conviver.

O ambiente familiar costuma ser o primeiro espaço onde essa mudança se manifesta. Relações que antes eram marcadas por independência vão incorporando novas camadas de apoio e de cuidado. Filhos cuidam de pais, cônjuges reorganizam rotinas, redes informais se ativam. O cuidado oscila entre o afeto e a responsabilidade, entre o desejo de estar presente e as exigências concretas de tempo e energia.

Mas nem sempre há estrutura para isso.

Conciliar vida pessoal, trabalho e cuidado ainda é um desafio pouco estruturado. Quem assume responsabilidades com familiares, muitas vezes de forma silenciosa e solitária, precisa reorganizar agendas, reduzir jornadas de trabalho ou até deixar o mercado, revendo escolhas. Nesse processo, também tem sua autonomia reduzida.

Ao mesmo tempo, pessoas mais velhas que desejam continuar trabalhando e não preservaram sua plena autonomia nem sempre encontram espaços preparados para acolher diferentes ritmos, necessidades ou formas de contribuição, encontrando dificuldades para prolongar o seu sustento próprio.

A equação se torna ainda mais complexa quando observada a partir da cidade.

Deslocamentos longos, calçadas irregulares, transporte pouco acessível, serviços fragmentados e a distância entre moradia, trabalho e equipamentos de saúde ampliam o esforço necessário para se manter a autonomia, tanto de quem envelhece quanto de quem cuida, contribuindo para o isolamento e a exclusão desses grupos.

Por outro lado, quando a cidade oferece proximidade, mobilidade adequada, redes de serviços e espaços de convivência, ela contribui diretamente para prolongar a autonomia e reduzir sobrecargas de cuidado.

Autonomia, nesse sentido, deixa de ser apenas uma condição individual e passa a refletir também a forma como a sociedade organiza seus espaços, suas relações e seus serviços.

Nesse contexto, a inclusão digital da população 60+ não é um favor, mas uma condição concreta para a autonomia, a dignidade e a participação social. Ainda assim, o acesso a ferramentas digitais permanece limitado para milhões de pessoas idosas no Brasil, seja pela falta de dispositivos, de conectividade ou de acolhimento nos processos de aprendizado.

Talvez o desafio não esteja em evitar a dependência, mas em criar condições para que ela seja vivida com dignidade, equilíbrio e suporte, sem que isso signifique isolamento, sobrecarga ou ruptura de vínculos.

Autonomia não é um estado permanente ou algo que se atinge por acaso. Ela é construída ao longo do tempo e sustentada por diferentes fatores: condições físicas e mentais, relações sociais, estabilidade financeira e o contexto em que se vive.

Não se trata de um luxo material, mas de um tipo de qualidade de vida que se constrói e que, com o tempo, se torna cada vez mais valiosa.

Quando falamos em envelhecimento ativo, estamos falando de garantir condições reais para se viver com autonomia, dignidade e participação. Esse olhar ganhou forma em 2002, quando a OMS lançou o Marco Político do Envelhecimento Ativo, fruto de estudos com organismos internacionais e coordenado pelo seu Departamento de Envelhecimento e Curso de Vida. Pela primeira vez, o envelhecimento foi tratado a partir da promoção da saúde e estruturado em 4 pilares fundamentais: saúde, aprendizagem contínua, participação e segurança/proteção.

Na prática, isso significa entender saúde como bem-estar físico, mental e social; reconhecer que aprender ao longo da vida sustenta a autonomia; garantir a participação como expressão da cidadania, com o direito de ir e vir e de estar presente na vida social e política; e assegurar condições de proteção e segurança. Essa visão segue atual e orienta iniciativas como a Década do Envelhecimento Saudável (2021-2030) da ONU, que propõe um esforço coletivo para que viver mais venha acompanhado de viver melhor.

Autonomia é, em grande medida, a capacidade de decidir, de se mover, de escolher e, inclusive, de recusar. E, à medida que a vida se alonga, manter essa capacidade passa a depender cada vez mais de escolhas feitas ao longo do caminho.

Se envelhecer é inevitável, preservar a autonomia passa a ser um dos principais desafios e, também, uma das principais conquistas.

Trabalho, cidade e relações de apoio deixam de ser temas separados e passam a compor, juntos, a base de uma sociedade que precisa se reorganizar para sustentar vidas mais longas.

Porque, no limite, toda autonomia é sustentada por alguma forma de suporte, mais visível ou mais silenciosa. Ninguém é totalmente independente.

É sobre esse suporte que precisamos começar a falar.

Se autonomia virou um luxo, ela deixou de ser apenas uma questão individual e passou a ser um reflexo das escolhas coletivas que fazemos como sociedade.

O que está em curso não é apenas uma mudança demográfica, mas uma reorganização progressiva da forma como a sociedade se estrutura.


As opiniões expressas neste artigo são de exclusiva responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a posição do jornal.

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Fonte: diariodorio.com