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Prefeitura do Rio tomba Hospital Nossa Senhora das Dores e protege patrimônio histórico de Cascadura – Diário do Rio de Janeiro

Prefeitura do Rio tomba Hospital Nossa Senhora das Dores e protege patrimônio histórico de Cascadura – Diário do Rio de Janeiro
  • Publishedabril 30, 2026
Prefeitura do Rio tomba Hospital Nossa Senhora das Dores e protege patrimônio histórico de Cascadura – Diário do Rio de Janeiro

Carta do papai Noel
HOSPITAL NOSSA SENHORA DAS DORES. CASCADURA – Foto: Daniel Martins/ Diário do Rio

A Prefeitura do Rio oficializou o tombamento definitivo do Hospital Nossa Senhora das Dores, em Cascadura, na Zona Norte. O decreto foi publicado no Diário Oficial desta quarta-feira (29) pelo prefeito Eduardo Cavaliere.

Localizado na Avenida Ernani Cardoso, o complexo passa a ter sua integridade física e visual protegida por lei. A medida alcança um dos conjuntos arquitetônicos mais importantes do subúrbio carioca, ligado à história da medicina, da assistência social e da ocupação urbana da região.

Fundado em 1884 pela Santa Casa da Misericórdia, na antiga Chácara do Ferraz, o hospital foi o primeiro do Brasil dedicado ao tratamento da tuberculose. A área foi adquirida pelo Barão de Cotegipe, então provedor da Irmandade da Misericórdia, em um período no qual o isolamento dos pacientes era visto como medida sanitária necessária.

Um marco da arquitetura hospitalar no Rio

O decreto reconhece o Hospital Nossa Senhora das Dores como exemplar pioneiro da chamada arquitetura hospitalar pavilhonar. Esse modelo, adotado no início do século XX, valorizava ventilação, iluminação natural, circulação entre prédios e conforto ambiental.

O conjunto inclui seis pavilhões, áreas verdes e a Capela de Nossa Senhora das Dores, erguida entre 1911 e 1917 em estilo neogótico. O complexo também reúne passarelas, ornamentos, esculturas, serralheria original e edificações remanescentes da antiga chácara.

Até 1965, o hospital manteve foco no tratamento da tuberculose. Depois, passou a atender outras especialidades, sobretudo a psiquiatria.

Nos últimos anos, parte das instalações foi desativada por dificuldades financeiras. No fim do ano passado, a Prefeitura do Rio inaugurou no complexo a RUA Sonho Meu, residência e unidade de acolhimento voltada a pessoas em situação de rua, dentro do Programa Seguir em Frente.

Tombamento protege capela, pavilhões e entorno

HOSPITAL NOSSA SENHORA DAS DORES. CASCADURA – Foto: Daniel Martins/ Diário do Rio

O tombamento não se limita às fachadas. A proteção inclui a Capela de Nossa Senhora das Dores, a gruta de orações, o prédio principal, os seis pavilhões de enfermarias, o necrotério e as passarelas de circulação.

Também ficam preservadas as antigas estrebarias, hoje usadas como lavanderia, além de esculturas, ornatos decorativos, serralheria original e o elevador do bloco de apoio.

Para evitar que o hospital seja encoberto por construções modernas, a prefeitura criou uma Área de Entorno de Bem Tombado. A partir de agora, novas edificações nas vizinhanças imediatas terão altura máxima de 15 metros.

Letreiros, anúncios e toldos também terão restrições. A publicidade não poderá encobrir elementos decorativos das fachadas históricas e precisará de autorização prévia dos órgãos de patrimônio.

Projeto teve defesa de Tainá de Paula

A preservação do complexo vinha sendo defendida pela vereadora Tainá de Paula, do PT, autora de projeto de lei pelo tombamento do hospital.

Em entrevista ao DIÁRIO DO RIO, ela afirmou que a proteção do imóvel dialoga com a política urbana de seu mandato e com a valorização do patrimônio suburbano.

“O tombamento do Hospital Nossa Senhora das Dores, conhecido pelos cariocas como Hospital de Cascadura, é uma ação que dialoga muito com a política urbana do nosso mandato. Primeiro, porque do ponto de vista arquitetônico, estamos diante de uma arquitetura eclética tradicional do subúrbio carioca. Além disso, do ponto de vista urbanístico, trata-se de um imóvel histórico, cuja função social de cuidado, principalmente de atendimento aos vulnerabilizados, remonta ao século XIX”, afirmou Tainá de Paula.

A vereadora também destacou a importância da instalação da RUA Sonho Meu dentro do complexo, como forma de manter a vocação social do espaço.

Subúrbio ainda tem poucos bens protegidos

HOSPITAL NOSSA SENHORA DAS DORES. CASCADURA – Foto: Daniel Martins/ Diário do Rio

A preservação do patrimônio suburbano segue como uma disputa no Rio. Embora bairros do subúrbio tenham forte presença na história da cidade, a maior parte dos tombamentos municipais ainda está concentrada no Centro e na Zona Sul.

Cerca de 80% dos bens tombados pelo município estão nessas áreas, com 313 imóveis. Nos subúrbios, os bens protegidos aparecem principalmente em bairros como Marechal Hermes, Méier e Madureira.

Também se destacam conjuntos como a Fábrica Bangu e o antigo complexo industrial hoje ocupado pelo Colégio Pedro II, em Realengo.

Para Daniel Sampaio, ativista pela preservação do patrimônio arquitetônico e responsável pela página Rio Antigo, o tombamento do hospital é uma vitória para a memória da cidade.

“O Rio antigo não se resume ao Centro e à Zona Sul. O subúrbio possui exemplares magníficos, muitos dos quais sequer são tombados. O Hospital Nossa Senhora das Dores é um dos maiores patrimônios da nossa cidade, motivo de orgulho para Cascadura e para todo o subúrbio central”, afirmou Daniel Sampaio.

Ele também defendeu a criação de novas Áreas de Proteção do Ambiente Cultural nos bairros suburbanos.

“Precisamos ampliar e levar pra outros locais, senão vamos ver o subúrbio desaparecer aos poucos”, disse Daniel Sampaio.

Santa Casa apoia preservação do complexo

HOSPITAL NOSSA SENHORA DAS DORES. CASCADURA – Foto: Daniel Martins/ Diário do Rio

Para Cláudio André de Castro, mordomo dos prédios da Santa Casa da Misericórdia, proprietária do complexo, a proteção do imóvel preserva também a memória da medicina no Rio.

“O prédio é a memória não só do Rio de antigamente, mas de como a Irmandade da Misericórdia, representante mor da classe médica carioca por séculos, cuidava e cuida das pessoas até hoje. Uma memória da medicina, de como ela era praticada, e da caridade que nos trouxe até aqui. Um prédio belíssimo, mas que tem função prática ainda mais bonita”, afirmou Cláudio André de Castro.

O tombamento não significa desapropriação do imóvel. A medida protege sua estrutura, sua paisagem, sua função histórica e seus elementos arquitetônicos.

Com a nova regra, o complexo não poderá ser demolido. Qualquer obra de manutenção, restauração, reforma ou mudança de uso terá que passar por análise dos órgãos de patrimônio.

O Instituto Rio Patrimônio da Humanidade e o Conselho Municipal de Proteção do Patrimônio Cultural serão responsáveis pela tutela do conjunto.

O Decreto nº 57.921 também prevê rigor em caso de dano. Se houver demolição ilegal ou prejuízo acidental ao imóvel, os responsáveis poderão ser obrigados a reconstruir as partes afetadas, reproduzindo técnicas e características originais.

Para moradores e pesquisadores da Zona Norte, o tombamento representa um raro freio à pressão imobiliária no subúrbio e uma medida concreta de proteção da identidade de Cascadura.

Com informações do Tempo Real

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Fonte: diariodorio.com