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Por que doenças autoimunes demoram tanto para ser diagnosticadas?

No meu 10º ano de formada em medicina, percebo que a reumatologia não foi uma escolha feita na faculdade e sim construída na prática, diante de pacientes reais e, muitas

  • Publishedabril 7, 2026

No meu 10º ano de formada em medicina, percebo que a reumatologia não foi uma escolha feita na faculdade e sim construída na prática, diante de pacientes reais e, muitas vezes, desassistidos.
Ainda como médica de uma unidade básica de saúde, eu me deparava com pessoas que já carregavam o peso de uma suspeita de doença autoimune, ou até mesmo um diagnóstico, mas que não conseguiam acesso a um especialista.

Eram pacientes com dor persistente, fadiga intensa e limitações progressivas, tentando seguir suas rotinas sem respostas claras.
Esses casos me inquietavam. Mais do que isso: evidenciavam um problema recorrente na prática clínica: a demora no diagnóstico de doenças reumatológicas. Condições como lúpus e artrite reumatoide, por exemplo, podem levar anos até serem corretamente identificadas. Estudos indicam que o tempo médio entre os primeiros sintomas e o diagnóstico pode variar de 6 meses a mais de 5 anos, dependendo da doença e do acesso ao sistema de saúde.

Carta do papai Noel

Esse atraso não é raro e nem trivial. Estima-se que as doenças autoimunes afetem cerca de 5% a 8% da população mundial, sendo mais comuns em mulheres. Ainda assim, muitos pacientes enfrentam uma longa jornada até obter um diagnóstico definitivo.
Isso acontece porque os sintomas iniciais costumam ser inespecíficos, como: cansaço, dores no corpo, febre baixa, rigidez articular. Sinais que facilmente podem ser atribuídos a outras causas, atrasando a investigação adequada.

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Além disso, há um desafio estrutural importante: o acesso ao especialista. No Brasil, a distribuição de reumatologistas ainda é desigual, concentrada principalmente em grandes centros urbanos. Na prática, isso significa que muitos pacientes passam por diferentes profissionais ao longo de meses, ou anos, até chegar ao diagnóstico correto.
O impacto desse atraso não é apenas clínico, mas também emocional e social. Sem diagnóstico, o paciente convive com a incerteza, com a dor e, muitas vezes, com a sensação de não ser compreendido. Quando o tratamento é iniciado tardiamente, há maior risco de progressão da doença, com possíveis limitações físicas e comprometimento da qualidade de vida.
O encontro com a reumatologia
Foi nesse contexto que me aproximei da reumatologia. O que antes gerava angústia passou a despertar curiosidade e, depois, propósito. Entendi que, mais do que tratar doenças, essa especialidade oferece algo essencial: a possibilidade de devolver qualidade de vida e funcionalidade a pessoas que, muitas vezes, já haviam perdido a esperança de melhora.
Durante a residência, tive contato com profissionais que reforçaram a importância de um olhar atento e abrangente. Na reumatologia, ouvir o paciente com cuidado é parte fundamental do diagnóstico. Pequenos detalhes podem fazer toda a diferença.

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Ao longo dos anos, também percebi uma característica marcante da especialidade: a forte presença feminina. Mulheres estão cada vez mais presentes na assistência, na pesquisa e em posições de liderança ainda que esse movimento não aconteça de forma igual em todas as áreas da Medicina. A busca por mais equidade, especialmente em cargos de chefia e na academia, ainda é um desafio coletivo.
Pressões da carreira médica e burnout
Ao mesmo tempo, ser médica hoje também significa lidar com novas pressões. A necessidade de constante atualização, produtividade e presença no meio digital cria uma rotina intensa que, se não for equilibrada, pode levar ao esgotamento, como no caso do burnout.
Por isso, aprendi a valorizar não apenas o conhecimento técnico, mas também as trocas com colegas mais experientes. Ouvir quem já percorreu esse caminho ajuda a construir uma trajetória mais sustentável dentro e fora da medicina.
Lições da reumatologia para a vida
Hoje, olhando para trás, entendo que a reumatologia me ensinou muito além da prática clínica. Ensinou sobre escuta, tempo, paciência e, principalmente, sobre o impacto que um diagnóstico e um tratamento adequado podem ter na vida de alguém.

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Para quem está começando, deixo uma reflexão simples: nem sempre o caminho será linear, e tudo bem. Muitas vezes, é justamente no inesperado que encontramos propósito.
E, em meio a tantas exigências, vale lembrar: não é preciso dar conta de tudo ao mesmo tempo. A medicina transformou a minha vida. E a reumatologia, sem dúvida, ressignificou a forma como eu cuido e enxergo cada paciente.
*Dra. Vanessa Félix Nascimento é reumatologista e membro da Sociedade Paulista de Reumatologia (SPR).
 

Fonte: saude.abril.com.br