Cidade

“O Diabo Veste Prada 2”: um desfile com a coleção passada – Diário do Rio de Janeiro

“O Diabo Veste Prada 2”: um desfile com a coleção passada – Diário do Rio de Janeiro
  • Publishedmaio 1, 2026
“O Diabo Veste Prada 2”: um desfile com a coleção passada – Diário do Rio de Janeiro


Carta do papai Noel

Após quase 20 anos, “O Diabo Veste Prada 2” traz de volta duas figuras que ajudaram a definir uma era do cinema e da cultura pop: Miranda Priestly (Meryl Streep, de “A Dama de Ferro”) e Andy Sachs (Anne Hathaway, de “Os Miseráveis”).

Baseado no best-seller de 2003 de Lauren Weisberger, inspirado em sua experiência como assistente de Anna Wintour na Vogue, o primeiro “O Diabo Veste Prada” rapidamente ultrapassou a condição de adaptação literária para se tornar um fenômeno cultural. Algumas cenas não apenas marcaram época, mas passaram a integrar o vocabulário coletivo. O monólogo do “suéter cerúleo” e o deboche por “florais na primavera” não são só momentos memoráveis, mas referências reconhecíveis até por quem nunca assistiu ao filme inteiro.

Mas reduzir seu impacto a frases icônicas simplifica demais o que o roteiro constrói. Sob a superfície elegante do universo da moda, o filme articula temas que, duas décadas depois, permanecem atuais: ambientes de trabalho tóxicos, grind culture, diluição da identidade pessoal em função da carreira, etarismo corporativo e, sobretudo, a importância de uma rede de apoio verdadeira. Trata-se de um retrato bastante fiel do mundo corporativo no fim dos anos 90 e no início dos anos 2000.

Esse equilíbrio entre forma e conteúdo encontra respaldo nas atuações. Meryl Streep constrói uma Miranda icônica, precisa e absolutamente dominante em cena, sem recorrer a excessos. Cada pausa, cada olhar e cada inflexão carregam peso dramático. Ao seu redor, o filme reorganiza carreiras. Anne Hathaway consolida sua transição para papéis mais maduros, enquanto Emily Blunt emerge como presença incontornável. Existe um claro “antes e depois” para ambas a partir desse filme.

Talvez por isso ele tenha envelhecido tão bem. Com exceções pontuais, como a dinâmica envolvendo o namorado de Andy, que hoje soa mais datada do que problemática, a maior parte de suas tensões permanece não apenas relevante, mas reconhecível no mercado de trabalho atual.

E é justamente aí que surge o risco. Quando um filme alcança esse nível de permanência, qualquer continuação deixa de ser apenas um novo capítulo e passa a representar uma intervenção sobre um legado. Nesse cenário, a pergunta se impõe: o que ainda existe para ser dito que não transforme esse retorno em uma mancha sobre algo que já havia se encerrado de forma quase perfeita?

É a partir dessa dúvida que “O Diabo Veste Prada 2” precisa se sustentar. E, com tristeza, considero que ele não entrega um trabalho à altura da marca que carrega.

Muita coisa mudou desde o primeiro filme. Embora seus temas continuem atuais, o mundo que os cercava não existe mais da mesma forma. As novas gerações têm outras opiniões e outras formas de reagir a ambientes de trabalho tóxicos. As formas de comunicação de 2006 praticamente desapareceram, e o Twitter, hoje “X”, nasceu justamente naquele ano. A relação da sociedade com a moda também mudou, assim como a imprensa, o consumo de imagem, a influência digital e a própria ideia de autoridade cultural.

Material não faltava. O filme até tateia alguns desses caminhos, mas nunca parece saber exatamente qual deles deseja seguir. Falta foco. Falta propósito. Falta uma mensagem central capaz de justificar esse retorno.

Havia inúmeros temas possíveis. O roteiro poderia acompanhar Miranda lidando com a transição definitiva para o digital. Poderia colocá-la diante da necessidade de encontrar uma sucessora. Poderia explorar a tentativa da Runway de se manter relevante diante de novas tecnologias, influenciadores, algoritmos e inteligência artificial. Qualquer uma dessas linhas daria ao filme um eixo dramático claro e uma problematização mais consistente.

Em vez disso, “O Diabo Veste Prada 2” prefere repetir a fórmula do primeiro, mas de maneira mais truncada e menos inspirada.

Quase 20 anos se passaram, e Andy parece ter mudado muito pouco. Ela continua desvalorizando o trabalho na revista de moda, ainda o enxerga como um degrau para algo maior e mais sério e segue buscando algum tipo de validação de Miranda. A personagem que havia encerrado o primeiro filme dando sinais de amadurecimento retorna presa a dilemas muito semelhantes, como se a vida adulta não tivesse acrescentado camadas reais à sua trajetória.

Miranda, por sua vez, afirma ter esquecido quem Andy era, e parte da dinâmica do primeiro filme se repete a partir disso. Confesso que essa escolha me pareceu uma das decisões mais inteligentes da continuação. Miranda Priestly, um ícone da indústria, responsável por décadas de trabalho e centenas de ex-funcionários, provavelmente não se lembraria de uma assistente que trabalhou com ela por menos de um ano, duas décadas atrás. Há uma crueldade coerente e muito factível nesse esquecimento. O problema é que o filme usa essa boa ideia apenas para reconstruir uma relação que já vimos antes e, depois, ainda lança dúvida sobre a sinceridade desse esquecimento.

A falta de evolução não aparece apenas nas personagens. A própria trama parece presa ao espelho do filme original. Andy precisa entregar um trabalho quase impossível para surpreender Miranda; Nigel (Stanley Tucci, de “Conclave”) empresta roupas para Andy; há uma montagem ao som de “Vogue”, de Madonna, bem inferior à do primeiro filme; o emprego de Miranda fica em risco; uma reviravolta salva o dia. Tudo soa familiar demais, mas com menos frescor, menos precisão e menos necessidade.

Vejam, o filme entretém. Há um tom gostoso de comédia, as atuações continuam fortes, o figurino chama atenção e a fotografia mantém elegância. O problema é que tudo isso o primeiro filme já entregava, e com muito mais personalidade. Uma continuação lançada 20 anos depois não precisa apenas reencontrar o encanto original. Ela precisa provar que aquele universo ainda tem algo novo a dizer.

“O Diabo Veste Prada 2” não chega a prejudicar o legado do primeiro filme, e isso já é lucro. Mas também não o expande de forma significativa. No fim, o retorno de Miranda e Andy se sustenta mais pela memória afetiva do público do que pela força dramática do que aparece em tela.

E, para uma sequência de um filme tão marcante, nostalgia não pode ser suficiente.

Nota: 3,5/5

Receba notícias no WhatsApp e e-mail



Fonte: diariodorio.com