Cidade

Emanuel Alencar: Lume e o absurdo do espigão – Diário do Rio de Janeiro

Emanuel Alencar: Lume e o absurdo do espigão – Diário do Rio de Janeiro
  • Publishedabril 27, 2026
Emanuel Alencar: Lume e o absurdo do espigão – Diário do Rio de Janeiro

Carta do papai Noel
Foto: Alexandre Macieira/Prefeitura do Rio

Um erro maquiado continua sendo um erro. O aforismo popular me ocorreu quando li uma reportagem de O Globo mostrando o projeto do espigão que vai enfileirar pequenos quitinetes na Praça Mário Lago, no Centro do Rio. O espaço de convivência, com mais de 40 árvores, receberia 20 andares (e não mais 24), com 624 apartamentos sem garagem (e não mais 720), além de quatro lojas. Ora, como se essa plástica reduzisse o absurdo do projeto. É claro que não.

Revitalizar o Centro pressupõe, sobretudo, ocupar as centenas de unidades abandonadas há anos. O Estatuto das Cidades e, mais acima, a própria Constituição Federal estabelecem que a função social da propriedade é um preceito fundamental a ser perseguido. Podemos e devemos adensar a região central da cidade — mas olhando, primeiro, para os espaços já existentes e subutilizados. Novas edificações, numa área já repleta de concreto, tratam de agravar ilhas de calor e a falta de circulação de vento.

A Patrimar, bom sublinhar, recebeu generosas lufadas de ar da Assembleia Legislativa e da Prefeitura do Rio. No fim de 2022, o deputado Rodrigo Amorim (PL) destombou a praça. Eduardo Paes (PSD) nunca se opôs e foi até às redes sociais defender a proposta. Mas os discursos são tão frágeis quanto estaca fincada num pântano. Dizem os apoiadores do espigão que ele ajudará a reduzir o déficit habitacional, abrigando famílias de baixa renda. Ora, estúdios com até 35 metros quadrados, sabemos, serão endereçados à especulação e aos aluguéis por temporada. Não cola.

Ornada pela estátua de Marielle Franco, a Praça Mário Lago merece continuar sendo um lugar de respiro para os trabalhadores na hora do almoço. Em vez de um superprédio, ela pode ser qualificada pela prefeitura, com atividades esportivas, danças e apresentações teatrais. Vamos mal.

Se a cidade insiste em trocar sombra por concreto e convivência por rentabilidade imediata, não está apenas errando no urbanismo — está abrindo mão do próprio direito à vida urbana. Defender a praça é, no fim das contas, defender o que ainda nos resta de cidade.

Receba notícias no WhatsApp e e-mail

Fonte: diariodorio.com