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‘Café com Mounjaro’, publis e mais: mercado ilegal de tirzepatida invade o Brasil com ajuda de influenciadores

Ler Resumo Introdução Influenciadores brasileiros são recebidos em eventos de luxo no Paraguai para promover produtos como Tirzec e Lipoless, alegadas versões da tirzepatida. Tais produtos não possuem registro nem

  • Publishedabril 30, 2026

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Introdução
Influenciadores brasileiros são recebidos em eventos de luxo no Paraguai para promover produtos como Tirzec e Lipoless, alegadas versões da tirzepatida. Tais produtos não possuem registro nem autorização para comercialização ou importação no Brasil, sendo a entrada via contrabando. A prática oferece riscos à saúde, como exemplificado por um influenciador que teve hipoglicemia grave após usar Lipoless.

Carta do papai Noel

Influenciadores brasileiros divulgam produtos paraguaios como Tirzec e Lipoless, alegadas versões da tirzepatida, sem registro no Brasil.
A legislação paraguaia permite a produção, mas a importação para o Brasil é proibida pela Anvisa e ocorre majoritariamente por contrabando.
Produtos não possuem controle de qualidade e segurança equivalentes aos originais, gerando riscos à saúde.
Um influenciador teve hipoglicemia grave após usar Lipoless em dose alta e mal conservado, destacando os perigos.
A Anvisa proíbe a comercialização, importação e divulgação desses medicamentos irregulares no território nacional.

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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.

Um salão iluminado por lustres, taças de champanhe circulando e recepcionistas com o corpo inteiro coberto de tecido dourado. Foi nesse cenário que influenciadores brasileiros foram recebidos, em abril, em um evento ligado à farmacêutica paraguaia Quimfa SA, realizado em Ciudad Del Este.
O evento girava em torno do “Tirzec”, produto apresentado como uma versão própria da tirzepatida — princípio ativo do Mounjaro.

Essa substância é patenteada, e uma única empresa detém os insumos para a sua produção em todo o mundo. Mas, no Paraguai, brechas legais permitem o uso do termo ‘tirzepatida’ e até a sua suposta produção por outras marcas.

Embora produtos desse tipo não possam ser comercializados, importados ou mesmo divulgados no Brasil, quem subiu ao palco do evento não foram nomes do mercado paraguaio, mas figuras conhecidas do universo fitness brasileiro.
As estrelas da noite eram famosos como Juju Salimeni, Paulo Muzy e Gracyanne Barbosa. E ação foi chamada de “Encontro de Gigantes”.
Segundo os posts, a maioria deles teria sido convidada pela Farmácia Triunfo, drogaria paraguaia que se define como “distribuidora oficial do Tirzec” no Instagram.
A Triunfo, que se diz uma “farmácia esportiva”, também se dá o título de “distribuidora oficial da Lander“, uma empresa especializada em esteroides anabolizantes.

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Mais detalhes do evento não foram divulgados, mas esse formato não é bem uma novidade.
Meses atrás, o laboratório Eticos Paraguay, que comercializa uma suposta versão do Mounjaro chamada Lipoless, fez uma grande cerimônia para divulgar, também, a sua futura cópia da retatrutida, um composto experimental cuja versão original nem saiu do laboratório ainda.
Esse solenidade contou com figuras como a atriz Deborah Secco e o influenciador Renato Cariani, apontado, segundo conteúdos encaminhados à VEJA SAÚDE, como um dos principais rostos da campanha para a divulgação do Lipoless no território nacional.
Essas e outras festas são exemplos de como  empresas paraguaias têm apostado em ações de alto impacto, com estética de luxo e forte presença digital, para alcançar consumidores brasileiros.
Na esteira desse movimento, cresce também um nicho de influenciadores especializados na criação de conteúdos sobre o mercado de canetas emagrecedoras do Paraguai, mesmo que sem vínculo comercial com as marcas.

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A divulgação focada em brasileiros, porém, contrasta com o fato de que a entrada desses produtos no Brasil, na imensa maioria das vezes, só é possível por meio de contrabando.

Renato Cariani, Deborah Secco e outros em evento de divulgação da retatrutida do Eticos Paraguay. (Instagram/Reprodução)

Influenciadores em foco
Além dos eventos envolvendo grandes influenciadores do Brasil, mensagens obtidas por VEJA SAÚDE sugerem que brasileiros ligados às farmacêuticas podem estar oferecendo pagamento, além de amostras grátis para testagem de canetas em troca da promoção do produto nas redes sociais.
O influenciador Fábio Tavares, por exemplo, informou ter sido vítima de um contrato enganoso relacionado ao produto Lipoless, da farmacêutica Eticos Paraguay. Segundo relatou, uma equipe teria o procurado para fazer a divulgação, informando que se tratava de um produto “100% legalizado no paraguai” e fabricado por uma indústria “centenária” e “consolidada”.
Nas conversas, o representante da agência informa que, embora o produto ainda não seja comercializado no Brasil, a campanha teria o objetivo de “posicionar a marca no país”. 

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Esse tipo de ação, porém, oferece diversos riscos tanto para a saúde dos influenciadores, quanto a dos compradores, como mostra a própria história de Tavares, que foi levado ao pronto-socorro após usar a tirzepatida do Paraguai para a campanha publicitária.
Segundo o jovem, após a primeira aplicação, ele apresentou um quadro de hipoglicemia grave e precisou de atendimento médico de urgência.
O produto enviado pela empresa, diz o influenciador, seria a versão da caneta com a dose máxima, de 15 miligramas — seis vezes acima da recomendação para um primeiro uso. Além disso, teria chegado em sua casa em más condições de conservação.

Conversas de empresa com Fábio. (Acervo Pessoal/Reprodução)

Envolvimento de Cariani
A campanha estaria sendo encabeçada no Brasil pela marca do empresário Caique Moraes, mais conhecido como “Caique Parça”, além de englobar pessoas que se declaram como profissionais de relações públicas ligados à marca Lipoless no Paraguai.

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Procurados para comentar sobre a possível relação da empresa brasileira de marketing com a Eticos, os responsáveis pelas mensagens disseram que a agência não iria se manifestar.
A reportagem também tentou contato com a farmacêutica paraguaia, mas não obteve resposta até esta publicação.
Ainda de acordo com as conversas que a VEJA SAÚDE teve acesso, a campanha conta com grandes influenciadores da área fitness, como o químico Renato Cariani, que já chegou a ser indiciado por tráfico de drogas em 2024, por supostamente promover o desvio de produtos químicos usados na produção de drogas ilícitas.
“Assumimos o marketing de influência aqui [no Brasil]. Inclusive, o Renato Cariani já está divulgando o produto (posso te mandar um vídeo dele falando sobre)”, diz uma das mensagens.
Cariani é também sócio de Caique Moraes, dono da empresa Caique Parça, na G Farma, empreendimento que fornece suplementos manipulados para saúde, beleza, emagrecimento e performance.

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Nas redes sociais, os dois já relataram envolvimento com ações de marketing da empresa Eticos, incluindo o evento onde foi feito o anúncio de uma futura cópia da retatrutida. Em vídeo, Caique conta que foi o responsável por divulgar o evento, fazendo, inclusive, o contrato com a atriz Deborah Secco, que marcou presença no lançamento, como mencionado acima.
À época do evento, em resposta, até mesmo a Dinavisa (agência sanitária paraguaia similar à Anvisa) destacou que o produto anunciado pela farmacêutica paraguaia não possui registro sanitário vigente nem autorização para sua comercialização no país, tampouco consta sua aprovação por autoridades regulatórias reconhecidas internacionalmente.
Mas Cariani é frequentemente visto em outros eventos do Lipoless, além de já ter produzido diversos conteúdos sobre o produto. Em um dos vídeos, por exemplo, chega a dizer que o fato de o produto não circular no Brasil seria fruto de questões burocráticas. “E uma questão de qualidade? não. É uma questão de patente”, disse.

Renato Cariani em eventos do Lipoless. (Instagram/Reprodução)

Um nicho em ascensão
De maneira geral, atualmente, existem dezenas de influenciadores — inclusive médicos — com perfis criados exclusivamente para falar das canetas antiobesidade vindas do Paraguai ou tendo o assunto como tema principal.
Nesse ecossistema, estão perfis de dicas, de divulgação de farmácias paraguaias “especializadas” e diários de uso do produto. Parte das páginas até incorpora a sigla “PY” (de Paraguai) no próprio nome de usuário para sinalizar o foco do conteúdo.
Nas contas, é ensinado desde como adquirir o produto no que seriam fontes confiáveis até como importá-lo para o Brasil. Ainda, são divulgadas ‘notícias’ sobre esse mercado, como as novas marcas lançadas e comparações entre os efeitos de cada produto.
Um dos perfis mais ativos sobre o tema das canetas é o “Café con Monjaro”, do médico Max Greyson. No Instagram e TikTok, ele acumula milhões de visualizações e se apresenta como fonte de dados e notícias sobre o que chama de “mundo das tirzes”, com foco especial em Ciudad del Este, polo comercial paraguaio na fronteira com o Brasil.
Presença frequente em eventos de divulgação das canetas, em seus conteúdos, o médico comenta a chegada de novos produtos, faz visitas às fábricas e farmácias, alerta sobre novas ações da Anvisa para barrar a entrada dos produtos no Brasil e oferece informações sobre efeitos esperados com o uso.
O médico, que trabalha e atende pacientes no Paraguai, destaca em suas redes que não comercializa as canetas. Em seu site, porém, ele redireciona seguidores para diversas páginas de venda de farmácias e empresas especializadas em importação de produtos variados, apontados como “parceiros”.
Em nota encaminhada à VEJA SAÚDE, Max destacou que a aba tem o objetivo de reunir contatos considerados confiáveis dentro de diferentes segmentos (não só das canetas). Disse, ainda, que as parcerias envolvem contratos de publicidade e divulgação de perfis já conhecidos, mas não parcerias de negócios.
“Esses parceiros contratam espaço de mídia e divulgação, principalmente porque o perfil possui grande alcance e forte presença digital […] o que eles vendem, a forma como vendem e toda a responsabilidade comercial são integralmente deles”, diz.
Ainda segundo o médico, não há parcerias ou quaisquer tipos de contrato entre o perfil “cafeconmonjaro” e os laboratórios fabricantes de tirzepatida do Paraguai.

Publicações no perfil “Café con Monjaro”. (Instagram/Reprodução)

Também na nota, Max ressalta que é contrário e desestimula o envio ilegal dos produtos para o Brasil. “Meu posicionamento sempre foi público e transparente: sou contra o contrabando, contra o mercado clandestino e a favor da regulação sanitária séria, tanto pela Dinavisa quanto pela Anvisa”, diz.
Mas ele não é o único no ramo de perfis brasileiros especializados em canetas paraguaias. Com uma rápida busca pelos termos “eticos paraguay”, “lipoless” e “tirzec”, a reportagem localizou ao menos 20 perfis no TikTok focados exclusivamente em conteúdos sobre esses produtos, além de centenas de publicações sobre eles feitas por influenciadores de outros nichos.
Por que o ‘Mounjaro do Paraguai’ é perigoso
Em conteúdos publicados nas suas redes, o próprio Caique Parça também faz campanhas favoráveis ao Lipoless. No mesmo vídeo em que relata a sua jornada para divulgação evento onde foi anunciada a cópia da retatrutida, ele questiona:
“Qual a diferença do Lipoless para o Mounjaro, aprovado pela Anvisa? Três mil reais. O Lipoless custa R$500,00 e o Mounjaro R$3,500,00. Com esses R$3.000,00 dá para você ir até o Paraguai, aproveitar uma viagem muito legal e ainda por cima economizar”, sugere.
Mas, para especialistas, a verdade é que as diferenças vão muito além do preço.
Os “Mounjaros” produzidos no Paraguai são produtos com outros nomes comerciais, como Lipoless e T.G., que afirmam conter tirzepatida, o mesmo princípio ativo do medicamento original, mas que não são aprovados no Brasil ou em outros países do mundo (além do Paraguai).
+Leia também: Tirzepatida: como saber se é falsa e como não cair em ciladas
Essa produção é possível porque o Paraguai tem uma legislação de patentes diferente da maioria dos países. Embora existam regras internacionais, cada região pode decidir como elas serão aplicadas e fiscalizadas.
Na prática, a lei paraguaia possui brechas que abriram espaço para que laboratórios locais produzissem versões próprias da tirzepatida. Assim, supostamente, são similares, mas não genéricos.
A questão é que, embora a fabricação seja legal no Paraguai, isso não torna o produto equivalente ao Mounjaro original e há muitas dúvidas quanto à sua segurança.
Onde mora o risco
O problema começa na própria fabricação. A tirzepatida é uma molécula polipeptídica altamente complexa, muito diferente de medicações mais simples, como dipirona ou ibuprofeno.
Produzi-la exige tecnologia avançada e uma cadeia de fabricação bem monitorada, algo que hoje está concentrado em poucos centros no mundo.
No caso do Paraguai, não há clareza sobre de onde vem o princípio ativo usado — já que, em tese, somente a Eli Lilly detém o insumo —; se ele segue padrões de boas práticas de fabricação; ou como são feitos os testes de pureza, estabilidade e dose.
Além disso, como esses medicamentos não podem ser vendidos no Brasil, chegam ao país sem garantia de fiscalização e de transporte adequado.
Como a tirzepatida é sensível à temperatura, falhas na refrigeração podem comprometer o efeito ou provocar reações adversas imprevisíveis.
Por exemplo, uma ação da Polícia Federal já chegou a localizar quase 300 ampolas do produto Lipoless, de 15 mg, ocultadas no interior do pneu estepe de um carro em Arapongas (PR).
“Entra aí a possibilidade de problemas com a conservação e pureza do produto, inconsistência de doses e imunogenicidade, ou seja, a garantia de que não existe ali algum composto que pode causar reação imunológica. Nada garante isso em medicamentos manipulados ou de origem incerta”, avalia Clayton Macedo, diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem).
Por último, especialistas alertam que substâncias proibidas no passado para emagrecimento, como anfetaminas e análogos hormonais, também eram eficazes, mas apresentavam riscos graves à saúde.
Por isso, um dos receios é que compostos desse tipo possam estar presentes em produtos de origem incerta, levando o usuário a acreditar que está utilizando um medicamento original, já que testemunha o resultado imediato de emagrecimento.
Assim, além do Lipoless, as resoluções proibitivas da Anvisa se aplicam a produtos como T.G.; Tirzazep Royal Pharmaceuticals e T.G. Indufar.
Segundo a agência, as medidas foram motivadas pelo aumento das evidências de propaganda e comercialização irregulares, inclusive na internet, o que é proibido para medicamentos no Brasil.
Ainda de acordo com a Anvisa, medicações sem registro só podem ser importadas de forma excepcional e para uso exclusivamente pessoal, mediante prescrição médica e o cumprimento de requisitos adicionais.
Porém, nos casos em que a agência publica proibição específica, como o Lipoless, a importação, por qualquer modalidade, também fica suspensa.
Além disso, nenhum medicamento pode ser comercializado no Brasil com orientações ou bula em língua estrangeira, o que implica riscos aos pacientes, como dificuldade de compreensão para o paciente e erros de administração.

A crise do Mounjaro falsificado

Fonte: saude.abril.com.br