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Vitrais centenários da Candelária passam por restauração inédita no Rio – Diário do Rio de Janeiro

Vitrais centenários da Candelária passam por restauração inédita no Rio – Diário do Rio de Janeiro
  • Publishedabril 25, 2026
Vitrais centenários da Candelária passam por restauração inédita no Rio – Diário do Rio de Janeiro

Carta do papai Noel
Foto: Márcia Foletto

Os principais vitrais do coro da Igreja da Candelária, no Centro do Rio, começaram a ser retirados para restauração pela primeira vez desde que foram instalados, em 1899. As peças, de fabricação alemã, passaram 127 anos expostas à poeira, ao vandalismo e à trepidação provocada pelo trânsito da Avenida Presidente Vargas e da Rua da Candelária.

A obra central representa Nossa Senhora da Candelária com o Menino Jesus. Ao lado, os outros vitrais mostram anjos anunciadores. Ao todo, são 111 pedaços retirados dos três principais vitrais. Cada um deles é dividido em 37 partes durante o processo de desmontagem.

O trabalho exige cuidado técnico e foi feito com andaime projetado para a retirada das peças. Isso porque os vitrais não estão todos alinhados, e as imagens dos arcanjos têm dimensões menores.

“Esse é um detalhe que muita gente que visita a igreja não percebe. Para melhor visualizar a obra, o ideal é observá-la na nave central, mais perto do altar”, explicou Helder Magalhães Viana, gerente de Arqueologia do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH).

A retirada também virou aula prática para especialistas e estudantes de Museologia, Belas Artes e outros cursos. Durante a visita técnica, o grupo analisou técnicas usadas na decoração dos vitrais, vestígios de restaurações anteriores, vidros trincados, rachaduras e outras falhas.

A restauração deve durar quatro meses. O plano foi aprovado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), responsável pelo tombamento da igreja, realizado em 1938.

Entre as etapas previstas estão a substituição de peças quebradas, muitas delas danificadas por pedradas, a limpeza dos vidros originais e a recuperação das cores. Segundo o projeto, 98% da obra original foi preservada.

Os vidros usados na reposição foram importados da Casa Mayer, de Munique, na Alemanha, mesma fabricante dos vitrais originais. A empresa foi fundada em 1847 e segue administrada pela quinta geração da família.

“Empregamos vidros bem finos, de 3 a 4 milímetros de espessura. É essa técnica que permite termos vidros em formatos e cores distintas que ajudam a ressaltar a beleza dos vitrais”, explicou Walter Uotmoot, enviado da Casa Mayer para acompanhar o restauro.

A restauração prevê ainda o uso de pigmentos de tintas com chumbo para recuperar as cores originais, além da instalação de vidraças de proteção e telas metálicas. O modelo já é adotado em países europeus para proteger vitrais históricos.

Também será implantado um novo sistema de ventilação junto aos vitrais. A medida deve reduzir a umidade nas peças, problema agravado pela maresia, já que a igreja fica a cerca de 300 metros da Baía de Guanabara.

A empresa responsável pelo trabalho é a Luidi & Luiza Vitrais, do Rio de Janeiro, com cerca de 50 anos de atuação. A equipe já trabalhou em restaurações no Palácio Pedro Ernesto, na Catedral de Brasília, no Palácio Laranjeiras e no Palácio do Catete.

A concepção artística dos vitrais da Candelária foi dos brasileiros João Zeferino da Costa e Henrique Bernardelli. Os esboços foram enviados à Alemanha em 1898, um ano antes da instalação das peças.

Uma das histórias mais conhecidas sobre a obra diz que a imagem de Nossa Senhora da Candelária teria sido inspirada na esposa de um amigo de Zeferino da Costa.

“Não há provas, mas é possível que isso tenha ocorrido. Naquela época, era muito comum que os artistas fizessem obras de arte inspiradas em modelos vivos. Ainda mais se frequentavam academias de artes, como foi o caso de Zeferino”, explicou Janaína Ayres, doutora em Artes Visuais pela Escola de Belas Artes da UFRJ e mestre em Arte Sacra.

A ligação de Zeferino da Costa com a Igreja da Candelária durou cerca de 30 anos. Entre 1869 e 1899, ele pintou quadros e murais que ainda ornamentam a nave central, a capela e outros espaços do templo. Entre os destaques estão seis quadros no teto da nave, que contam parte da história da igreja desde o século XVII.

Antes da construção atual, o terreno abrigava uma capela erguida nas primeiras décadas dos anos 1600. Segundo a tradição, ela teria sido construída após promessa do casal espanhol Antônio Martins da Palma e Leonor Gonçalves, que enfrentou uma tempestade em alto-mar e prometeu erguer uma capela em homenagem a Nossa Senhora da Candelária no primeiro porto onde chegasse.

A igreja atual começou a ser construída em 1775, a partir de projeto do engenheiro militar português Francisco João do Roscio. A obra, em estilo barroco, só foi concluída em 10 de julho de 1898, após 123 anos.

“A Candelária é um museu a céu aberto que retrata boa parte da história da igreja no Brasil. O vitral de Zeferino retratando a santa é um dos principais símbolos da Candelária”, afirmou Justino Neto, secretário da Irmandade do Santíssimo Sacramento da Candelária, responsável pela administração do templo.

A restauração é coordenada pelo IRPH, órgão da Prefeitura do Rio, em parceria com a Irmandade do Santíssimo Sacramento da Candelária e apoio do Consulado Geral da Alemanha. O projeto “Vitrais da Igreja da Candelária: restauração de um patrimônio em risco” está orçado em R$ 1,6 milhão.

Os recursos vêm da fundação alemã Gerda Henkel, que financia pesquisas e projetos de arqueologia, história da arte, história e preservação do patrimônio. Além da recuperação dos vitrais, a parceria prevê formação de mão de obra especializada.

O processo também será tema de um seminário internacional em agosto, no Rio, de uma exposição pública e de um livro que vai documentar a restauração. Alunos do Educandário Gonçalves de Araújo, mantido pela Irmandade da Candelária, participarão de uma oficina de Educação Patrimonial para aprender a produzir vitrais.

Esta é a segunda parceria da Fundação Gerda Henkel com o Rio de Janeiro. Há seis anos, a instituição financiou o tratamento emergencial de um vitral do Theatro Municipal, danificado durante uma ação dos bombeiros em um incêndio.

Com informações d´O Globo

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Fonte: diariodorio.com