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Relógios partidos: narrativas insólitas costuradas pelo tempo – Diário do Rio de Janeiro

Relógios partidos: narrativas insólitas costuradas pelo tempo – Diário do Rio de Janeiro
  • Publishedagosto 30, 2025
Relógios partidos: narrativas insólitas costuradas pelo tempo – Diário do Rio de Janeiro

Carta do papai Noel

Alguns dias atrás, reli o livro Relógios Partidos, da escritora e roteirista Luiza Conde, para escrever esta resenha. Terminei a leitura à noite, bem tarde, e, durante a madrugada, tive o que um grande escritor chamou de “sonhos intranquilos”. Não acordei metamorfoseada num inseto monstruoso, porém, após ler os contos escritos por Luiza, talvez encarasse essa experiência insólita como algo natural, pois é este o tom que atravessa todo o livro.

No conto “Chá com biscoitos”, uma menina brinca de servir chá para suas bonecas. Porém, em vez de usar seu conjuntinho de plástico, prefere brincar com o jogo de chá de porcelana que os pais já a proibiram de pegar. O que parece a simples travessura de uma criança arteira, revela-se, ao virar das páginas, uma história surpreendente e um tanto assustadora.

Dividido em três partes cujos títulos remetem ao passado (“Tempos que foram”), presente (“Tempos que são”) e futuro (“Tempos que podem ser”), a obra traz histórias cercadas de suspense, que envolvem o leitor. Na esteira de autoras de terror e literatura fantástica, como a argentina Mariana Enriquez, Luiza Conde recorre ao sobrenatural para falar sobre as emoções humanas. Quem nunca desejou, por exemplo, poder voltar ao exato instante em que tomou uma decisão que depois considerou equivocada? Mas será que retornar àquele momento por meio de um relógio que marca “as horas de todos os sonhos perdidos” seria a solução?

Um dos melhores contos do livro, chamado “Coleção”, tem um início bucólico, com dois amigos procurando “uma casinha onde, se dizia, sabiam ler o futuro”. Quando finalmente encontram a casa, o leitor é levado junto com os personagens por uma trama inesperada e inquietante.

Santo Agostinho, em suas “Confissões”, escreveu, a respeito do tempo: “O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém me perguntar, eu sei; se quiser explicá-lo a quem me fizer a pergunta, já não sei”. Em Relógios Partidos, é o tempo que costura as narrativas, mostrando-se em forma de objetos antigos, de uma viagem de ônibus ou nos “cabelos enluarados” de uma personagem. Ainda assim, durante a leitura, ele, o tempo, mostra-se também difícil de explicar, como bem disse Santo Agostinho, pois o livro de Luiza Conde aprisiona o leitor em uma viagem no tempo das narrativas; e ele só percebe que foi capturado ao virar a última página.

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Livro: Relógios Partidos
Autora: Luiza Conde
Editora: Litteralux
Páginas: 114

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Fonte: diariodorio.com