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Idadismo: um preconceito para chamar de seu… desde que não seja com você – Diário do Rio de Janeiro

Idadismo: um preconceito para chamar de seu… desde que não seja com você – Diário do Rio de Janeiro
  • Publishedabril 9, 2026
Idadismo: um preconceito para chamar de seu… desde que não seja com você – Diário do Rio de Janeiro

Carta do papai Noel
Imagem gerada por Inteligência Artificial

A cena é comum. Alguém comenta, quase com entusiasmo: “Você está ótima para a sua idade.” Ou então: “Nem parece que tem 60 anos.” Quem ouve, agradece. Quem fala, muitas vezes, acredita que elogiou. Mas algo ali não encaixa completamente. Essas frases, tão naturalizadas, carregam uma ideia implícita: a de que a idade, por si só, seria um limite. Então, a idade precisa ser suavizada, compensada ou negada.

É nesse tipo de situação que o idadismo se manifesta com mais frequência. E há outras formas muito comuns. Está nas conversas informais, nos ambientes de trabalho, nos anúncios publicitários, nas escolhas de elenco, nas decisões que não são verbalizadas. Aparece em reuniões em que determinadas vozes são menos ouvidas, em processos seletivos que filtram silenciosamente os 50+, em tecnologias pensadas para um perfil único de usuário: os nativos digitais.

Às vezes, surge em detalhes quase imperceptíveis. No olhar de desconfiança quando alguém mais velho fala de inovação. Na surpresa quando o 60+ aprende algo novo com facilidade. Na expectativa de que desacelere, mesmo quando não há motivo para isso. Na descrença quando um casal 60+ inicia um namoro e se diz sexualmente ativo.

Aí vem alguém e diz: os 60+ são os novos 40. Não! Somos os novos 60+. Uma geração diferente das outras, como jamais existiu. Pessoas com 50, 60, 70 anos seguem trabalhando, aprendendo, empreendendo, iniciando novos projetos, ocupando espaços que, até pouco tempo atrás, não lhes eram atribuídos. Permanecem ativas, interessadas, em movimento e, muitas vezes, redefinindo o que se espera de cada fase da vida. São os novos 50, 60, 70+.

Ao longo do tempo, fomos expostos a narrativas que associam envelhecimento à perda… de energia, de relevância, de espaço. Essa lógica infiltra-se nas expectativas que construímos sobre nós mesmos e sobre os outros. Você já encontrou um amigo ou amiga da juventude e pensou: “Meu Deus, eu estou tão acabada como ele ou ela?”.

Curiosamente, há um aspecto particular nesse tipo de preconceito por idade. Diferente de outros marcadores, a idade não está delimitada em um grupo fixo. Ela é uma condição que atravessa a todos nós. Com o tempo, todos nós mudamos de posição dentro dessa lógica. Já pensou nisso? Um preconceito para chamar de seu… desde que não seja com você, não é verdade?

Parte da complexidade está no fato de que o idadismo foi aprendido. É cultural. Se a gente parar e pensar em uma avó ou avô, vai imaginar um casal de velhinhos bonachões, cabelos brancos, talvez com bengala ou em cadeiras de balanço. Que fofinhos! Somos todas e todos assim? Acredito que não. Eu olho em volta e vejo que não.

Em 1900, a expectativa de vida no Brasil era de 29 anos. Com o avanço da medicina, do saneamento básico e da qualidade de vida, em 2023, a expectativa de vida no Brasil passou para 76,4 anos, segundo o IBGE. Em 2024, a ONU declarou que cerca de 588 mil pessoas vivas no planeta comemoraram seu 100º aniversário. Para se ter uma ideia, nos anos 1990, foram apenas 92 mil. Todos nós conhecemos um centenário ou quase centenário. Ou ouvimos falar…

Claro que o envelhecimento não acontece da mesma forma para todos e todas. Ele é atravessado por oportunidades, condições de vida, hábitos e escolhas ou, da forma mais cruel, pela exposição contínua a riscos e desigualdades que se acumulam ao longo do tempo. Ainda assim, algumas expectativas parecem se repetir.

Em um país como o Brasil, onde a valorização da juventude está presente nas imagens, nos discursos e nos corpos expostos ao longo de quilômetros de praia, envelhecer também se torna uma experiência visível e, muitas vezes, julgada, especialmente entre as mulheres. Isso aparece em situações corriqueiras com a gente mesma: na percepção silenciosa diante do espelho, na dúvida quanto à escolha da roupa “adequada” para a idade ou na preocupação com o tal “teste do biquíni”.

Surge também nos detalhes difíceis de ignorar. Na raiz branca que pode ser vista como descuido, e não como a recusa a uma rotina, muitas vezes, estressante. No cabelo pintado, que pode ser interpretado como negação. Nos corpos mais velhos que surpreendem por serem ativos e musculosos, e são festejados como o padrão esperado, ainda que impossível de ser atingido pela maioria.

Há ainda os mais sutis. Na ideia de que certas fases da vida pedem recolhimento. No tratamento infantilizado e no diminutivo que se dá aos mais velhos. Na expectativa de que o tempo traga, necessariamente, limitação física e memória curta. Ou mesmo em diagnósticos médicos simplificados, em que a “velhice” surge como explicação suficiente para dores ou sintomas.

Essas percepções revelam o quanto ainda buscamos enquadrar o envelhecer em modelos. O envelhecimento é um processo progressivo, que pede atenção de quem está ao redor e não julgamentos apressados ou análises padronizadas, como se houvesse uma forma correta de atravessar o tempo. Mas a realidade já mostra que cada trajetória segue seu próprio ritmo, suas próprias condições, seus próprios caminhos. E, à medida que vivemos mais, essa diversidade deixa de ser exceção e passa a ser a regra.

Do ponto de vista legal, a discriminação não é apenas uma questão de percepção. O Estatuto da Pessoa Idosa estabelece que desdenhar, humilhar, menosprezar ou dificultar o acesso a oportunidades em razão da idade é crime. Ainda assim, muitas dessas situações permanecem diluídas no cotidiano, difíceis de nomear e ainda mais difíceis de comprovar.

Talvez por isso o idadismo seja tão persistente e, ao mesmo tempo, tão pouco questionado. Porque ele não está apenas nos discursos mais óbvios, mas nas pequenas situações que se repetem sem serem interrompidas. Estudos demográficos indicam que, a partir de 2050, as pessoas com 60 anos ou mais devem representar um terço da população brasileira. Aceitar que o Brasil está envelhecendo exige, antes de tudo, enfrentar o idadismo.

Esse descompasso entre o que ainda se pensa e o que já se vive torna o idadismo impossível de ignorar. E também mais urgente de ser reconhecido. Reconhecê-lo não significa apenas corrigir frases ou evitar determinados comentários. Significa rever referências profundas, aquelas que organizam a forma como a sociedade percebe o tempo, o valor da experiência e o lugar das pessoas ao longo da vida. E é justamente aí que começa a possibilidade de mudança.

A forma como lidamos hoje com o envelhecimento, portanto, não diz respeito ao outro. Ela antecipa, de alguma maneira, o modo como cada um de nós será percebido e tratado no futuro. O que está em curso não é apenas uma mudança demográfica, mas uma reorganização progressiva da forma como a sociedade se estrutura.


As opiniões expressas neste artigo são de exclusiva responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a posição do jornal.

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Fonte: diariodorio.com