Saúde Saúde - Ginecologia Saúde - Psiquiatria e Psicologia

Enxaqueca resistente: por que a dor persiste mesmo com tratamento — e o que fazer

A enxaqueca está longe de ser apenas uma dor de cabeça forte. Trata-se de uma doença neurológica complexa, que pode comprometer trabalho, sono, humor, vida social e produtividade. Em parte

  • Publishedabril 23, 2026

A enxaqueca está longe de ser apenas uma dor de cabeça forte. Trata-se de uma doença neurológica complexa, que pode comprometer trabalho, sono, humor, vida social e produtividade.
Em parte dos pacientes, o problema se torna ainda mais difícil quando as crises continuam frequentes mesmo após o uso de medicamentos preventivos ou abortivos tradicionais. É o que se costuma chamar, na prática clínica, de enxaqueca resistente ou refratária.

Esse grupo inclui pessoas que já tentaram diferentes classes de tratamento, muitas vezes por meses, sem controle adequado das crises. Não raramente, acabam sendo vistas como “casos difíceis“, quando na verdade precisam de uma abordagem mais especializada.
Muito além da dor de cabeça comum
A enxaqueca resistente costuma envolver crises frequentes, uso repetido de analgésicos e impacto funcional importante. Em muitos casos, o paciente também desenvolve medo constante de novas crises, distúrbios do sono, ansiedade associada e piora progressiva da qualidade de vida.

Carta do papai Noel

Uma das razões para a falha terapêutica é que nem sempre a enxaqueca é tratada de forma suficientemente estruturada. Às vezes, há uso irregular das medicações. Em outras, existe abuso de analgésicos, o que pode manter ou até piorar a dor.
Também é comum que fatores como insônia, estresse crônico, apneia do sono, depressão ou alterações hormonais estejam contribuindo para o quadro sem serem adequadamente abordados.

Continua após a publicidade

Por isso, quando nada parece funcionar, o problema nem sempre é ausência de tratamento — mas tratamento incompleto.
+Leia também: Neurologista explica principais causas da dor de cabeça constante e quando acender o alerta
Não é falta de esforço — é falta de estratégia
Pacientes com enxaqueca resistente não precisam apenas de “mais remédio”. Precisam de diagnóstico refinado, revisão do que já foi tentado, organização de gatilhos, correção de fatores agravantes e escolha mais inteligente das terapias preventivas.
A avaliação por especialista em cefaleia faz diferença justamente porque permite montar protocolos específicos. Isso inclui identificar se a dor é de fato enxaqueca pura, se há cefaleia por uso excessivo de medicação, se existem comorbidades psiquiátricas ou do sono e qual combinação terapêutica faz mais sentido para aquele perfil.
Em outras palavras, a diferença entre continuar sofrendo e começar a melhorar muitas vezes está menos na força de vontade do paciente e mais na qualidade da estratégia clínica.

Continua após a publicidade

Novas possibilidades mudaram o cenário
Nos últimos anos, a prevenção da enxaqueca avançou de forma importante. Uma das principais mudanças foi a chegada dos anticorpos monoclonais direcionados à via do CGRP, molécula envolvida na fisiopatologia da enxaqueca. Diretrizes da European Headache Federation apoiam o uso desses medicamentos na prevenção da enxaqueca, inclusive em pacientes que não responderam bem a terapias convencionais.
Outro recurso já bem estabelecido na enxaqueca crônica é a toxina botulínica tipo A. Ela é aprovada para profilaxia em adultos com enxaqueca crônica, definida como 15 ou mais dias de dor de cabeça por mês, com duração de 4 horas ou mais por dia.
O esquema mais conhecido é o protocolo PREEMPT, que padronizou os pontos de aplicação e ajudou a consolidar essa estratégia para pacientes com crises muito frequentes.
Isso não significa que todos precisarão dessas terapias, nem que elas substituem o restante do tratamento. Mas significa que hoje existe, sim, um caminho mais promissor para casos que antes pareciam sem saída.

Continua após a publicidade

A enxaqueca resistente continua sendo um desafio, mas já não deve ser encarada como sentença. Com avaliação especializada, combinação adequada de terapias e acesso às abordagens mais atuais, muitos pacientes conseguem reduzir crises, recuperar funcionalidade e voltar a viver com menos medo da próxima dor.
*Marcelo Zalli é neurologista, professor titular de heurologia na Universidade do Vale do Itajai, membro da Brazil Health
(Este texto foi produzido em uma parceria exclusiva entre VEJA SAÚDE e Brazil Health)

Fonte: saude.abril.com.br