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Operação Mare Liberum: Receita Federal apreende 350 mil dólares e R$ 1 milhão com auditores

A Operação Mare Liberum — mar livre, em tradução livre —, deflagrada nesta terça-feira pela Receita Federal, com o apoio da Polícia Federal, mostrou uma quantia vultosa de dinheiro vivo

Operação Mare Liberum: Receita Federal apreende 350 mil dólares e R$ 1 milhão com auditores
  • Publishedabril 28, 2026
Operação Mare Liberum: Receita Federal apreende 350 mil dólares e R$ 1 milhão com auditores

A Operação Mare Liberum — mar livre, em tradução livre —, deflagrada nesta terça-feira pela Receita Federal, com o apoio da Polícia Federal, mostrou uma quantia vultosa de dinheiro vivo mantida por auditores fiscais. Na casa de um deles, foram apreendidos 200 mil dólares. Uma outra auditora tinha em sua residência 358 mil dólares. E com uma terceira havia 30 quilos de reais, estimados em mais de R$ 1 milhão. A busca e apreensão recolheu ainda documentos e computadores.
Preenchimento da Declaração de Importação
Não só nas cifras, mas também em termos de número de servidores envolvidos, a ação impressiona: essa é considerada a maior feita pela Corregedoria da Receita Federal. São 25, entre auditores e analistas, que foram alvos de busca e apreensão e estão afastados. Há ainda 20 despachantes aduaneiros e empresários envolvidos. Uma das fraudes no controle aduaneiro ocorria no preenchimento das Declarações de Importações (DIs), que são feitas pelos despachantes aduaneiros.
— Na declaração, você tem que dizer, por exemplo, quem está comprando, quem está vendendo, o tipo de mercadoria, o valor aduaneiro (valor da mercadoria), qual o valor do frete e qual o transporte marítimo que será feito para aquela mercadoria. Como o imposto é cobrado em cima do valor aduaneiro, se a mercadoria custa R$ 1 mil e o despachante declara que ela custa R$ 100, obviamente os impostos recolhidos da empresa serão menores. Estamos falando de subfaturamento — explicou Claudiney Santos, superintendente da Receita Federal no Rio.
Ele apontou que ainda há a questão de desvio na classificação de mercadoria:
— Por exemplo, você está importando banana e diz que está importando abacaxi, para facilitar a entrada; ou o produto é ilegal e você declara como sendo um outro produto que é lícito. Assim, você foge de alguns controles que seriam feitos. Cabe ao nosso controle identificar numa conferência física que não se trata, por exemplo, daquilo que foi declarado. E é esse controle que foi falho devido ao corrompimento de agentes públicos. Mesmo que a mercadoria tivesse sido selecionada para uma conferência pela gestão de risco, o auditor que foi fazer a conferência pode ter dado ar de irregularidade àquela carga.
Dezessete mil declarações com indícios de irregularidades estão sendo analisadas. O valor das mercadorias envolvidas nas fraudes soma R$ 86 bilhões, entre julho de 2021 e março de 2026. O que se deixou de pagar de impostos ainda está sendo contabilizado, mas a Receita Federal estima que esteja na casa de dezenas de milhões de reais.
— Qualquer tipo de fragilidade nesse controle é motivo de preocupação para nós. Se há essa fragilidade, pode entrar de tudo, como produtos que colocam em risco a saúde das pessoas, o meio ambiente e a segurança pública. Esse tipo de fraude pode facilitar a entrada de itens como eletrônicos e roupas falsificadas, que não poderiam ser importadas e que, pela corrupção, acabou que algum agente público, que deveria autuar e dar pena de perdimento, fez vista grossa — detalhou Claudiney Santos.
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De acordo com ele, o esquema poderia facilitar ainda o ingresso de armas em território nacional e a saída de drogas:
— Geralmente, o porto é uma porta de saída de drogas, que entram por nossas fronteiras secas. Cito ainda medicamentos sem controle da vigilância sanitária. Então, se a gente perde o controle aduaneiro, a gente a condição de dar segurança para a nossa sociedade.
Admissão temporária
De acordo com a Receita Federal, as fraudes no controle aduaneiro ocorriam em três frentes. A segunda delas ocorria na admissão temporária, que é quando bem entra no território nacional de forma temporária, com suspensão do pagamento de impostos, fica um tempo no país e, para cumprir o regime, tem que voltar para o exterior. Isso ocorre geralmente no setor de óleo e gás.
— Se a mercadoria entra através de admissão temporária, ela deixa de pagar imposto, porque ela não era para uma internalização definitiva, e o servidor desvia a finalidade do regime, facilitando a permanência da mercadoria em território nacional de forma permanente, a empresa deixa de pagar aquele imposto que seria devido se se declarasse que era uma importação. Houve corrupção nesse aspecto — afirmou Claudiney.
De acordo com Renato Regal, delegado da Alfândega do Porto do Rio, esse regime específico envolve valores “de montantes muito altos”.
— Esse incentivo de isenção de impostos para o setor de óleo e gás é previsto em lei, que permite que se façam importações de uma série de produtos, como embarcações e outros maquinários, que podem ser importados sem que haja o pagamento de tributos, para incentivar a atividade comercial, como a extração de petróleo, que é importante para o país. Eventualmente, como está em investigação agora, podem ter ocorrido durante o controle sobre esses bens que estavam sob suspensão de tributos, irregularidades que poderiam acarretar a perda da suspensão do benefício e, consequentemente, o pagamento de parte desses tributos ou multas administrativas. E aí é que se criava um cenário propício para a prática de corrupção — explicou.
Funcionamento dos recintos alfandegários
A terceira vertente das fraudes diz respeito ao descumprimento das normas do funcionamento dos recintos alfandegários, que devem ter todo um arcabouço de segurança, como câmeras, para garantir o controle.
— Um porto é um recinto alfandegário e deve adota critérios de segurança, como controle de acesso, câmeras e gravação. Na medida em que se tem a atuação para que o recinto não cumpra esse rigor, para que as câmeras estejam desligadas, como ocorreu, por exemplo, então se passa a facilitar esse esquema. Então, o terceiro aspecto seria o não cumprimento de requisitos para estar alfandegado — esclareceu Ronaldo Feltrin, superintendente adjunto da Receita Federal no Rio.
As irregularidades que podem anular a suspensão de impostos e obrigar as empresas a pagar multas e tributos inclui a perda de prazo na apresentação de contratos e documentos
— Pode haver casos em que essa multa não foi recolhida e documentação, mesmo sendo intempestiva, foi aceita, com base no pagamento de propina — afirmou o delegado.
Investigação para identificar empresas
A Operação Mare Liberum foi deflragada pela Receita Federal do Brasil, com apoio do Ministério Público Federal e a Polícia Federal (PF). Só a Receita Federal atuou com 103 agentes entre auditores e analistas tributários, participando dos mandados de busca e apreensão.
As investigações deram-se por iniciativa da Receita Federal, por intermédio de sua Corregedoria, que desde fevereiro de 2022 apura irregularidades no despacho aduaneiro no âmbito do Porto do Rio de Janeiro e revelaram a existência de uma organização criminosa estruturada, composta por servidores públicos, despachantes aduaneiros e empresários que atuavam de forma coordenada, para viabilizar o desembaraço irregular de mercadorias importadas mediante pagamento sistemático de propina.
A operação se apoia em amplo conjunto probatório, reunindo registros sistêmicos e logs de acesso, relatórios de inteligência financeira com indícios de incompatibilidade patrimonial, análises de dados telemáticos que evidenciam combinação prévia das ações.
A investigação continua para chegar aos corruptores e identificar todas as empresas que se beneficiaram do esquema. Como a investigação está em sigilo determinado pela Justiça, os nomes das já identificadas não foram divulgados.
— O próximo passo inclui ainda fazer uma auditoria em todas as operações que passaram por esse grupo criminoso. Para isso, teremos um reforço de 50 auditores e analistas na equipe de investigação — afirmou o Renato Regal, delegado da Alfândega do Porto do Rio.
Ele ressaltou que o Porto do Rio continua em operação:
— Por mais que a quantidade de servidores envolvidos tenha sido relevante, representa uma pequena parte da equipe da Alfândega do Porto do Rio. Então, os demais estão desempenhando suas atividades da forma mais correta possível como sempre fizeram. E por mais duro que seja esse momento de apresentar para a sociedade essa falha, é também muito importante, porque nos apresenta um cenário promissor de que ficou quem tinha que ficar e tirou quem tinha que sair.
Os investigados poderão responder por crimes como corrupção, associação criminosa, contrabando, descaminho e lavagem de dinheiro, entre outros.

Fonte: extra.globo.com

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