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Influencer passa mal e precisa ser socorrido após usar “Mounjaro do Paraguai” em “publi”

Ler Resumo Introdução O influenciador Fábio Tavares foi hospitalizado com hipoglicemia e dores intensas após usar o ‘Mounjaro do Paraguai’ para publicidade. O produto, proibido no Brasil, foi administrado em

  • Publishedabril 8, 2026

Ler Resumo

Introdução
O influenciador Fábio Tavares foi hospitalizado com hipoglicemia e dores intensas após usar o ‘Mounjaro do Paraguai’ para publicidade. O produto, proibido no Brasil, foi administrado em dose excessiva, sem acompanhamento médico e com condições de transporte inadequadas. A empresa encerrou o contrato após o incidente.

Carta do papai Noel

Influenciador Fábio Tavares foi hospitalizado com hipoglicemia e dores severas após usar o produto.
O ‘Mounjaro do Paraguai’ é uma versão irregular do medicamento tirzepatida e é proibido no Brasil.
Fábio utilizou uma dose seis vezes maior que a recomendada inicialmente, sem orientação ou indicação médica.
A agência de marketing encerrou o contrato e recusou assistência após as reações adversas.
O medicamento foi entregue sem refrigeração adequada, violando as condições de armazenamento necessárias.

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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.

O educador físico e influenciador digital Fábio Tavares, de 27 anos, precisou ser levado ao pronto-socorro, na última quinta-feira (2), após fazer o uso de um produto conhecido como ‘Mounjaro do Paraguai’ para uma publicidade em suas redes sociais.

O jovem, que foi contratado por representantes da empresa fabricante, não tem obesidade e não tinha indicação médica para fazer o uso do medicamento, que é considerado irregular e não pode ser vendido no Brasil.  
Logo após a aplicação, enfrentou um quadro grave de hipoglicemia (queda brusca do açúcar no sangue). Desde então, segue com enjoos, além de fortes dores na região do estômago e das costas.

“Fui para o hospital tomar soro na veia e só fui dispensado [de uma internação] por falta de leitos, mas voltei nos dois dias seguintes para tomar glicose e morfina [um analgésico potente]”, relatou à VEJA SAÚDE.

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O que aconteceu?
Fábio deu entrada no hospital no mesmo dia em que fez o uso da substância. Na ocasião, apresentou, segundo ele, além das fortes dores e vômitos, um pico de pressão arterial elevada (190 por 100 mmHg), batimentos acelerados (120 bpm mesmo em repouso) e nível baixo de glicose no sangue (60 mg/dL) — quadro compatível com hipertensão, taquicardia e hipoglicemia.
A substância utilizada pelo influencer faz parte do grupo das chamadas “canetas emagrecedoras”. Especificamente, a dose que chegou à casa dele pertenceria a uma farmacêutica paraguaia que alega ter a própria versão do medicamento tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro original e indicado para o tratamento de obesidade e diabetes tipo 2.
A tirzepatida tem os direitos de fabricação na maior parte do mundo restritos à criadora e detentora da fórmula, a empresa Eli Lilly, exceto no Paraguai, devido a brechas na legislação local.

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Por isso, o “Mounjaro do Paraguai” é proibido no Brasil e tem sido alvo de apreensões da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Segundo especialistas, não há garantias de segurança nesse produto, já que os métodos de fabricação são desconhecidos e não utilizam os insumos que passaram por estudos científicos e foram aprovados pelos órgãos de fiscalização sanitária ao redor do mundo.
Além disso, eles entram no país por meio de tráfico, sem certificações de segurança e conservação adequadas.

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+Leia também: Mulher é internada após usar caneta emagrecedora do Paraguai: saiba o que torna o produto perigoso
A “publi” que deu errado
Os caminhos do jovem se cruzaram com a substância quando ele recebeu o convite de uma agência especializada em marketing de influência que disse representar a marca do Paraguai. A mesma agência já havia feito parcerias com o influenciador para outras empresas.
A proposta era a de que ele recebesse o produto, o utilizasse e, em seguida, publicasse o seu relato de experiência, disponibilizando um link para vendas aos seus seguidores. Para isso, ele receberia, além da própria caneta, o valor de R$500,00.

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Segundo o influencer, ele não sabia que se tratava de um produto ilegal no Brasil quando foi contratado. “Eles não falaram em momento algum que só era aprovado no Paraguai”, disse.
Conforme conversas por meio do aplicativo WhatsApp, encaminhadas à VEJA SAÚDE, a equipe teria dito a Fábio que o produto era “100% legalizado no Paraguai” e fabricado por uma indústria “centenária” e “consolidada”.
Ainda no bate-papo, a agência afirmou que, embora o produto não seja vendido no Brasil, a empresa estaria fazendo a campanha com influenciadores visando o posicionamento da marca no país.

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“São pessoas que estão agenciando influenciadores no Brasil para fazer essas coisas e não estão ligando muito para a legalidade do processo”, concluiu Fábio.
Mas essa avaliação veio tarde. Ele conta que só descobriu que o que estava recebendo era proibido no Brasil depois. “Só que aí eu já tinha tomado”, lamenta. E não tomou pouco. 
Dose 6 vezes acima do recomendado
A dose da tirzepatida paraguaia que chegou à casa de Fábio era de 15 miligramas, a maior disponível para o produto e seis vezes mais alta do que o recomendado inicialmente.
Na bula do Mounjaro (o original), o indicado é que a dosagem seja iniciada com 2,5 mg por via subcutânea uma vez por semana e aumentada, aos poucos, em incrementos de 2,5 mg a cada quatro semanas até que a dose alvo seja alcançada.
Por isso, a dose alvo deve ser definida por meio de acompanhamento médico. Mas, no caso de Fábio, a suposta tirzepatida foi enviada mesmo sem ele ter indicação clínica, bem como sem nenhum tipo de orientação e com uma dose que jamais deveria ser administrada em um primeiro uso.
“Essa medicação tem efeitos adversos gastrointestinais que são bem conhecidos. Por isso, é preciso titular a dose. Foi assim que foi feito nos estudos. Se ele recebeu direto 15 mg, então, pulou vários meses. Está tudo errado neste caso. Não há nada certo”, argumenta o endocrinologista e diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia (Sbem) Clayton Macedo.
Empresa se recusou a dar assistência
O educador físico fez uso da substância na madrugada do último dia 2 e, três horas depois, começaram as reações adversas.
Segundo ele, a suspeita inicial era de pancreatite, mas, por enquanto, ela está descartada. Os médicos ainda investigam o quadro de Fábio, mas acreditam que ele tenha enfrentado uma grave crise de hipoglicemia que também levou às cólicas violentas.
Quando procurou a agência responsável pela campanha do produto para relatar o ocorrido, a equipe teria lhe respondido apenas alegando que encerraria o contrato.
“Em relação ao que mencionou sobre pancreatite, é importante esclarecer que [nome da marca*] não causa esse tipo de condição”, disse um dos agentes em mensagens para Fábio, compartilhadas com a VEJA SAÚDE.
Ainda no conteúdo, o agente afirmou que as expectativas da marca em relação à parceria já haviam sido apresentadas, além de que o aceite do produto por parte do jovem foi acordado e, portanto, ele não teria a obrigação de recebê-lo se não houvesse interesse prévio.
“Diante disso, consideramos o acordo encerrado a partir deste momento”, finalizou a mensagem.
Ao contrário do alegado, a pancreatite é um dos efeitos adversos relatados nas bulas de todos os medicamentos da classe dos análogos ao hormônio GLP-1, como a tirzepatida (do Mounjaro) e a semaglutida (substância ativa do Ozempic).
Aliás, nos últimos meses, a Anvisa e entidades internacionais de saúde emitiram alertas sobre sobre o risco dessa reação associado ao uso indevido das medicações.
De acordo com dados da agência, entre 2020 e fevereiro de 2026 foram notificadas as suspeitas de seis mortes e 225 casos supostamente ligados à pancreatite em usuários de “canetas emagrecedoras” no Brasil. 
Entrega irregular
Outro ponto importante é que, de acordo com o influencer, o ‘medicamento’ chegou à sua casa sem refrigeração e por meio de um transporte aparentemente irregular.
Para ter ideia, segundo a farmacêutica Eli Lilly, a detentora dos direitos da tirzepatida, a caneta deve ser mantida na geladeira, entre 2ºC e 8ºC e protegida da luz. Caso necessário, cada frasco pode ser armazenado fora da geladeira por até 21 dias, mas em temperaturas que não excedam 30°C.
No entanto, segundo Fábio, elas chegaram em sua casa “quentes”.
“Mandei mensagem e eles [os membros da agência] falaram que estava tudo certo. Mas já achei estranho. Pensei: eles são uma indústria farmacêutica e estão mandando o medicamento por pessoas que estão fazendo entregas para o ‘Mercado Livre’?”, especulou.
Mais problemas
“Para que se tenha acesso a esse medicamento, é preciso se consultar com o médico e receber a receita – que é de controle especial. A indicação da medicação precisa ser respeitada. E é voltada a pacientes com obesidade, diabetes ou sobrepeso associado a comorbidades
De acordo com Clayton, isso é crítico. “Pelo relato, toda uma cadeia não foi seguida”, diz o médico.
Essa ‘cadeia’ envolveria, primeiro, a indicação médica real (o remédio é indicado somente para pacientes com obesidade, diabetes ou sobrepeso associado a comorbidades). Segundo, viria a exigência de receita para a adquiri-lo – que, no Brasil, é de controle especial -, e, antes mesmo de tudo isso, o respeito à origem do produto, que não deve ser duvidosa.
“Por isso, entra aí a possibilidade de problemas com a conservação e pureza do produto, inconsistência de doses e imunogenicidade, ou seja, a garantia de que não existe ali algum composto que pode causar reação imunológica. Nada garante isso em medicamentos manipulados ou de origem incerta”, avalia Clayton.
Jovem está sofrendo ataques nas redes
Após o caso, Fábio publicou em suas redes sociais o seu relato e tem feito alertas para que a comunidade tenha cuidado com o uso de substâncias irregulares.
Segundo o jovem, desde então, está sofrendo ataques nos comentários das postagens que, para ele, coordenados e automatizados.
“Eu andei sofrendo ataques de bots que parecem ter sido pagos pela empresa. O conteúdo das mensagens é praticamente o mesmo. Por isso, diria que são robôs de inteligência artificial defendendo a indústria”, diz.
Com a experiência, o influenciador considera que existe uma problemática legislativa no que diz respeito à entrada dessas substâncias no Brasil. “O problema está na própria existência desse medicamento passando na fronteira”, considera.
“Não foi um atravessador [quem o procurou]. É a própria farmacêutica do Paraguai traficando para o Brasil. A gente não está falando de uma pequena crise sanitária”, afirma.
A crise das versões irregulares do Mounjaro
Segundo a Anvisa, as apreensões de medicamentos emagrecedores realizadas pela Polícia Federal apresentaram aumento nos últimos anos, passando de 609 unidades em 2024 para 60.787 em 2025. Mas só nos três primeiros meses de 2026, já haviam sido apreendidas 54.577 unidades.

A crise do Mounjaro falsificado

Efeitos colaterais da tirzepatida e risco de versões irregulares
Apesar de ter efeitos colaterais conhecidos, o medicamento original é considerado seguro, embora possa, em casos raros, causar reações como pancreatite aguda e hipoglicemia. 
O risco de reações adversas aumenta, contudo, quando o medicamento é manipulado ou de origem irregular porque não há garantia sobre dose, pureza e conservação.
Isso significa que o paciente pode eceber mais (ou menos) princípio ativo do que o esperado. Além disso, sem controle rigoroso de qualidade, há risco de substâncias que provoquem reação do sistema imune.
É bem diferente do que ocorre nas medicações aprovadas pela Anvisa, que, para chegar ao mercado, passaram por uma série de etapas rigorosas: estudos clínicos, publicação de resultados e avaliação por agências regulatórias.
“A gente não sabe de onde vem os insumos, porque a detentora original da patente não vende o princípio ativo. Então, mesmo que essa medicamento seja mesmo do Paraguai e que lá exista mesmo uma indústria, a gente não sabe a a origem e o rigor técnico dessa fabricação”, destaca Clayton.
Assim, o médico alerta: “O remédio está sendo falsificado. É uma cadeia ruim. Quando tem esse viés comercial, a gente perde boa parte da segurança. E a própria eficácia fica comprometida”, aponta.

Fonte: saude.abril.com.br